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26/02/2004 08:22
"SEGUNDA-FEIRA" DE CINZAS
Já estava saindo quando sua mãe perguntou-lhe se não iria tomar café, deu uma desculpa qualquer e saiu. Esse era o grande dia. A chuva do dia anterior havia alagado todo o bairro, dobrou a calça até os joelhos e passou pela água podre à tempo de ver um rato boiando com a barriga para cima, deu um breve sorriso desdentado. Quando chegou perto da ponte deu uma olhada em volta, só viu uma família tentando tira, em vão, um sofá de dentro da casa inundada, se abaixou rapidamente e vasculhou a moita, a faca ainda estava ali, enfiou-a nas calças e saiu andando todo desengonçado. Sentiu o estômago doer lá pelas 15 h, era o segundo dia que não comia, preferia deixar para sua mãe, o sustento não era o bastante para os dois, ninguém trabalhava na casa desde que seu pai foi morto pelos PMs naquele tiroteio, tudo bem, ele tinha uma idéia e isso seria resolvido em breve. Acendeu o cigarro velho e esperou, estava em frente ao posto, como previsto não havia muito movimento no horário, haviam dois frentistas e um gerente no balcão, o caixa era desbloqueado e não haveria problemas. Um dos frentistas foi ao banheiro, então com que se despertado, atravessou a rua e seguiu caminhando passos rápidos, não houve tempo para perguntas, seus olhos estavam vidrados, sentiu o cheiro do medo, com um movimento rápido, atingiu o rosto do gerente com violência, o mesmo caiu no chão agonizando e o caixa foi esvaziado rapidamente, quando o segundo frentista foi perguntar o que estava acontecendo levou uma facada no estômago. Correu durante 40 minutos sem olhar para trás, parou próximo a favela e se escondeu no mato, verificou o fruto do assalto, R$ 223,00, uma fortuna sem dúvidas, ficou ali até parar de tremer, agora não sabia se era adrenalina ou fome mesmo. Quando anoiteceu saiu da tocaia e se dirigiu para quadra, havia muita confusão em sua cabeça, não sabia como usar todo aquele dinheiro, no meio do caminho um jovem de 16 anos atropelou um trabalhador que morava perto da sua casa, foi um grande barulho que o assustou, logo percebeu que o menino estava alcoolizado, havia muito sangue e ele gemia. Se aproximou bem devagar, o carro não amaçou muito, esticou o braço pelo vidro quebrado e abriu o porta luvas, caíram de lá camisinhas e documentos, nada de dinheiro, o jovem pediu ajuda, saiu dali bem rápido antes que desse algum problema. Começo a ouvir o barulho da bateria, era domingo de carnaval, o desfile seria em breve, então lembrou quando Wilson lhe disse a fantasia custa 220 real meu irmão, se quer disfilá, tem que comprá pois não sustento vagabundo, seus olhos encheram de lágrimas, lembrou de sua mãe, hesitou por um breve momento e entrou, havia conseguido o dinheiro iria desfilar isso que importava, haviam muitas pessoas na quadra da escola de samba, as mulatas rebolavam freneticamente, entregou o dinheiro e pegou a fantasia de Jibóia, começou a ficar eufórico, uma breve dor o aturdiu, estava com fome, sobraram 3 reais, não pensou duas vezes e foi para o boteco do Lauro para tomar uma branquinha e firmar o pulso, quando estava atravessando deu de frente com Claudio o frentista que havia ido ao banheiro, viu a fúria em seus olhos, soltou a fantasia no chão e começou a correr, sua vida ou melhor sua existência passou pelos seus olhos naquele instante, só ouviu o barulho dos tiros que perfuraram seu pulmão.
Chuva... muita chuva estava caindo, pelo jeito iria alagar tudo novamente, o povo estava cansado, e assim continuariam por muito tempo, na rua, muita confusão um rapaz acabara de levar alguns tiros nas costas, era um bom rapaz, é uma pena pois esse ano ele não vai desfilar na Sapucaí, enfim, "todo carnaval tem seu fim".
Todo Carnaval Tem Seu Fim (Marcelo Camelo)
Todo dia um ninguém josé acorda já deitado
Todo dia ainda de pé o zé dorme acordado
Todo dia o dia não quer raiar o sol do dia
Toda trilha é andada com a fé de quem crê no ditado
Mas o dia insiste em nascer
Mas o dia insiste em nascer
Pra ver deitar o novo...
Toda rosa é rosa por que assim ela é chamada
Toda Bossa é nova e você não liga se é usada
Todo o carnaval tem seu fim
Todo o carnaval tem seu fim
É o fim, é o fim
Deixa eu brincar de ser feliz,
Deixa eu pintar o meu nariz
Toda banda tem um tarol, quem sabe eu não toco
Todo samba tem um refrão pra levantar o bloco
Toda escolha é feita por quem acorda já deitado
Toda folha elege um alguém que mora logo ao lado
E pinta o estandarte de azul
E põe suas estrelas no azul
Pra que mudar?
Deixa eu brincar de ser feliz,
Deixa eu pintar o meu nariz
enviada por eder
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