Devaneios do cotidiano


Perfil




Blig Amigos

Arquivos



18/03/2004 23:30


MEMÓRIAS PÓSTUMAS E COIBIDAS

Sinto-me um refugiado nessa página, sei que esse espaço a mim não pertence, entretanto nessa fuga enlouquecida acabei por vir parar aqui, vou utilizar o espaço. Caro leitor, você pode achar muito insano mas tenho que relatar o que vi agora, pois em vida isso me foi negado. Há um mundo dentro dos livros que vai muito além do imaginário do escritor, que por hora é o nosso Deus, como personagem que sou sei da existência dessa vida que há em todas as obras, sei do poder do pensamento de um escritor, quando ele desiste de um personagem, amassa a folha e a joga no lixo, com essa folha se vão sonhos, esperanças e toda uma existência. Me chamo João Alvares, não sou ninguém importante só um personagem secundário de uma obra do século XIX, o que tenho a relatar, sim, é algo muito importante, algo que mudaria o rumo de um dos livros de Machado de Assis, o meu Deus, e poria fim às indagações.
Durante muito tempo fui amigo de Bentinho, carinhosamente apelidado por mim e por outros colegas de Dom Casmurro, por causa do seus hábitos reclusos, tivemos uma juventude muito harmoniosa, estávamos sempre juntos no colégio e eu era sempre convidado para o desjejum em sua casa. Vários dias ficamos conversando ao pé de um cajueiro até anoitecer, depois entrávamos para fazer os deveres e falar sobre meninas. Toda harmonia teve seu fim quando nos tornamos adultos, Bentinho acabou por casar com a moça dos olhos oblíquos e dissimulados, Capitu, ela que causou toda a ruína em sua vida, como irei relatar.
Eu desconfiava de todas as atitudes dela, sem dúvidas era muito suspeita, nos jantares eu percebia os olhares que ela trocava com Escobar, um grande amigo da família. Naquele dia de chuva me pus a esperar em frente a casa de Escobar, algo dentro de mim dizia que a verdade seria revelada em breve. Como supus, uma charrete parou próxima ao portão de entrada e de dentro saiu uma moça com um grande chapéu branco e um vestido longo, era Capitu. Depois pulei o muro para dentro da propriedade, cuidando para não ser visto e me dirigi até a janela do quarto, meu coração parecia que iria pular do meu peito, o que se passou posso relatar a vocês que foram tórridas cenas de sexo. Não me demorei a contar tudo para Bentinho que no início duvidou de mim e até me expulsou de sua casa, mas o tempo passou e seu filho nasceu, todos diziam que não havia dúvida, o menino Ezequiel era a cara de Escobar. No velório do mesmo, depois de um certo tempo, Dom Casmurro pode verificar a veracidade da minha denúncia, afinal sua amada olhava apaixonadamente para o defunto e derrubou algumas lágrimas que se apressou em limpa-las rapidamente quando viu o olhar acusador do marido.
É claro que ela negou, muitas pessoas ficaram imparciais, assim como muitos achavam que não haviam provas para incriminá-la até os dias de hoje. Machado de Assis fez seu papel de Deus e me tirou de toda a história, levando consigo todos os meus valores e o meu testemunho, deve ter rescrito o livro centenas de vezes, para que a duvida persistisse por vários séculos, contudo, minhas memórias vazaram por vários livros até que cheguei aqui e poder dizer a pleno pulmões:
- Eu estive lá e afirmo, ela traiu sim !


enviada por eder






Feed: Seja avisado quando este blog for atualizado :: (O que é isso?)