|
15/03/2004 19:57
O CHEFE
Enquanto fumo esse cigarro, meus colegas de cela elaboram mais alguma tentativa frustrada de fuga. Não vejo motivos para ir para o outro lado do muro, depois do que fiz, a sociedade não me aceitaria de forma passiva. Mesmo se tratando de algo desumano, faria tudo novamente, afinal, ele merecia. Um ano se passou e ainda tenho as imagens nítidas em minha mente, o choro, o barulho o sangue.
Motivos tive vários, mas todo o desespero começou realmente naquele dia em que ele e chamou para um café na sua sala, o Sr. Geraldo, chefe da empresa, era um velho que não parava de fumar seu cachimbo fedorento, me falou um monte de asneiras, sobre sentir muito e disse que eu seria despedido, por cortes de custos. Logo eu, um empregado exemplar que dediquei 6 anos da minha vida para aquele escritório, para depois ser jogado na lama sem propósito convincente. Só de pensar nisso, sinto meu sangue ferver, corte de custos ! ele iria ter o que merecia, sim, serio o correto.
Todas as manhãs eu saía em busca de um emprego, enfrentava filas imensas contudo era tudo em vão, não conseguiria tão logo, a cada vez que fechavam a por na minha cara eu lembrava do velho estúpido com seu cachimbo. Me doía muito ver meu filho em casa sem nada para comer. A virada de mesa começou quanto um ex colega de serviço me forneceu uma pistola automática dentro de um saco de compras, ele disse que fazia aquilo por compaixão, pois considerava uma tremenda injustiça tudo o que havia acontecido. As vezes me perguntava se eu mataria alguém com aquela arma ou atiraria na minha própria boca, minha lucidez tinha me abandonado, fui tomado por tal ira que não posso descrever.
Sr. Geraldo chegou em sua casa por volta das 19:40 h, eu já estava lá a tarde toda, ficou assustado quando viu que eu apontava a arma para sua testa, pestanejou alguma coisa inaudível e começou a implorar que eu não o mata-se, mas é claro que eu não faria isso, poderia fazer pior. Minhas mãos estavam tremendo e eu não conseguia conter as lágrimas, em meio a soluços , ordenei que me acompanha-se até a cozinha. Sua mulher e filhas estavam amarradas nas cadeiras com fios de nailon, que comprei no mercado em frente a sua casa, ambas estavam com amordaças com panos úmidos, se debatiam freneticamente.
- Olhe aqui seu filho da puta, você tem que me pagar por tudo o que fez, toda a injustiça, seu porco capitalista.
Ele chorava como uma criança, falava o nome de todos os santos que conhecia, dizia que eu iria ser preso por aquilo, mas para mim nada mais importava. Engatilhei a arma bem devagar e coloquei na cabeça da filha, ele implorava e eu me sentia bem, puxei o gatilho e os pedaços do cérebro da garota voaram para todos os lados. Não imaginava tamanha potência, então gritei:
- Você acabou com minha vida me tirando aquele emprego, quem sofreu mais com tudo isso foi meu filho, sendo assim, você carregará nas costas o peso da morte da sua família !
Dessa vez atirei no peito da mulher três vezes para não fazer tanta sujeira, ele abraçava os corpos ensangüentados e aquilo me fez sentir repulsa, havia um pedaço de massa encefálica na parede. Acendi um cigarro e coloquei a arma sobre a mesa, então disse:
- A arma está ai, fiz o que eu tinha que fazer, nossas vidas tomam rumos inesperados, mas nós somos os responsáveis por tais rumos, sejam bons ou ruins, nessa vida não vejo nada muito esperançoso. Nesse momento meu filho está em casa com dores no estômago, não... não está doente, seu estômago está digerindo ele próprio. Não há mais o que dizer, a decisão é sua, a arma está carregada, pode vingar sua família agora.
Como podem imaginar ele não pegou aquela arma, preferiu me ver apodrecendo aqui na cadeia e não poder fazer nada pelo meu filho. Recebi a notícia à dois dias, ele foi morto em um tiroteio, estava envolvido com o tráfico de drogas. Acho que o Sr. Geraldo tomou a decisão correta, não haveria maneira melhor de destruir minha vida, mas eu lhe dei essa opção, porque ? Covardia, essa palavra define o que senti, pois no instante que vi meu filho passando fome, percebi que a esperança era algo muito distante, não pude alcança-la .
enviada por eder
Feed: Seja avisado quando este blog for atualizado :: (O que é isso?)
|