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10/04/2004 10:53
UMA CERTA PÁSCOA
Quando viu aquele garoto de 12 anos levar um tiro no ouvido no meio da rua, percebeu que não poderia continuar neutro com relação a sua realidade, naquele instante seu destino mudaria completamente, alguma atitude deveria ser tomada. Dois papelotes de maconha foram o motivo da brutalidade, o garoto deveria fazer a entrega na favela vizinha entretanto foi abordado antes que pudesse concluir o trabalho, não disse nada e entregou a mercadoria, mesmo sem reação levou o tiro mortal. Souza sabia que aquele não era um caso isolado e que os cadáveres nas esquinas e becos estavam se tornando cada vez mais comuns. Enfrentar qualquer traficante que fosse seria suicídio, então ele decidiu que poderia fazer algo pela comunidade, as crianças deveriam ter uma melhor orientação para que não seguissem aquele destino, de certa forma, inevitável. Com a ajuda de alguns políticos conhecidos, levantou fundos para criar uma oficina de artes no meio da favela, lá, jovens e crianças ocupariam seu tempo usando de sua criatividade, muitos talentos foram revelados, a idéia fez tanto sucesso que foi copiada por diversas entidades. Conseguiu alguns sócios, 12 ao todo, para ampliar seu trabalho, todos eram admiradores de suas idéias e queriam seguir o exemplo. Criaram então diversos programas de ajudas as famílias carentes, doações de alimentos e geração de empregos, fazendo com que a criminalidade na favela diminuísse de maneira significativa, pois com algumas reivindicações conseguiriam até um melhor policiamento.
Contudo, os líderes das facções marginais estavam se sentindo agredidos por tais mudanças na favela, perceberam que o controle da mesma já não era total, alguns moradores já se rebelavam contra os bandidos, não obedeciam mais as ordens, então eles, os traficantes, resolveram consumar tudo. Souza foi surpreendido em uma das vielas, três homens encapuzados apontavam-lhe armas de grosso calibre.
- Então você é o tal do Souza que está querendo criar uma revolução né, o que você ta querendo ? tá achando que é um Jesus qualquer é ? Disse o homem de capuz vermelho e calça caqui.
- É isso ai ! ele acha que é Jesus e tá tentando revolucionar as coisas por aqui ! Esbravejou o rapaz que impunha uma doze e tremia muito.
- Na verdade, o que procuro e tentar ajudar as pessoas daqui sem prejudicar o trabalho de vocês, por favor não façam nada, não fiz mal nenhum a vocês porque me agridem ? Souza disse essas palavras com lágrimas nos olhos, sentia muito medo.
De nada adiantou suas palavras, foi levado para um galpão abandonado, foi estuprado diversas vezes, deram diversos chutes no seu rosto, até não sobrar nenhum dente intacto, o amarraram em uma cadeira e lhe deram inúmeros choques elétricos, uma espuma branca escorria pelo canto de sua boca quando colocaram agulhas embaixo de suas unhas, uma a uma eram cravadas na carne. Quando ele parecia não suportar mais um dos agressores teve a idéia mais brutal:
- Ele não se acha o "tal do Jesus", então vamo crucificar o cara !
Todos adoraram a idéia, começaram a rir descontroladamente, um deles urinou em cima de Souza. Menos de quinze minutos depois, ele foi obrigado a caminhar pelo meio da favela com um caibro com cerca de 3 metros nas costas, os moradores ficaram horrorizados com a cena, o homem que havia revolucionado tudo e trazido esperança para aquele povo, agora estava sendo açoitado pelos traficantes, hematomas cobriam totalmente o seu corpo.
No alto da favela Souza foi obrigado a deitar com os braços estendidos sobre o caibro, haviam inúmeras pessoas em volta, muitas delas chorando, nada podiam fazer para impedir aquele horror. O líder dos traficantes, um sujeito conhecido como O Rei, ergueu as mãos, em uma delas havia uma marreta e na outra diversos pregos enormes, então gritou;
- Que isso sirva de exemplo para quem tentar impor suas idéias nesse local, a nossa lei é única, não queremos revolucionário que atrapalhe nosso trabalho.
Desceu a marreta violentamente contra os joelhos de Souza que gritava muito, seus olhos estavam injetados de pavor, nada tinha feito de mal, sabia o quanto estava sofrendo mas não se arrependia de nada que tivesse feito, pode ajudar muitas pessoas e isso não podiam lhe tirar, ele tinha aberto uma nova expectativa para as pessoas, vida nova, esperança. Pregaram seus braços na madeira e o deixaram ali no chão, deram tiros para cima e ameaçaram de morte quem tentasse ajudar, ele ficou lá até não suportar mais, toda a dor do mundo havia lhe tirado a vida, não só física mas moral. Certo tempo depois O Rei voltou e lhe deu um tiro no peito para garantir que o trabalho fora concluído.
No dia seguinte, ninguém ressuscitou.
FELIZ PÁSCOA A TODOS
enviada por eder
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