|
24/04/2004 10:26
PASSEIO NO SHOPPING
Parou para descansar um pouco, enxugou o rosto com a manga da blusa rasgada, o suor já havia alcançado seus olhos que agora ardiam muito, o sol do meio dia já tinha se tornado algo insuportável, teria que ir para uma sombra. Olhando para o outro lado da rua viu um shopping center, várias senhoras bem vestidas saíam de lá com inúmeras sacolas nas mãos, jovens tomando sorvete e alguns seguranças na entrada.
Deixou seu carrinho próximo ao meio fio, naquele dia ela havia acordado as 4:30 h da madrugada, sempre acordava nesse horário para conseguir mais papel e quem sabe alguma coisinha para comer, segundo ela, os lixos dos grandes edifícios escondiam maravilhas para sua degustação. Certo dia encontrou até um pote de camarão ao molho que ainda nem estava apodrecido e jogaram fora, estava escuro e não podia ver nada direito, mesmo assim estava uma delícia, ficava espantada com quanta comida era desperdiçada, o mesmo acontecia nas feiras de frutas e verduras, sempre passava por lá quando todos já tinham ido e pegava alguns alimentos "bons" do chão.
Atravessou a rua e entrou no shopping sob o olhar desconfiado dos seguranças, haviam inúmeras pessoas lá dentro que, quando passavam próximo à ela, desviavam com certa aversão - na certa veio roubar alguma coisa ou pedir comida - comentavam alguns, contudo, ela não percebia tal aspereza, pois achava isso normal no ser humano, afinal ela sem dúvidas era inferior e se colocava no seu lugar, não contribuía de forma alguma para que o mundo fosse um lugar correto. As pessoas que nasceram nas famílias certas, conviveram com as pessoas certas, essas sim eram importantes para humanidade, e o que elas tinham de melhor ? oras, tinham nascido na família certa, e só, sem mais perguntas por favor.
Com o tempo se acostumou a ser vista como um animal sujo que rasteja pelas ruas em busca de sobrevivência, afinal era isso que ela era, não havia propósitos para sua existência, somente a sobrevivência. Viu um loja de cosméticos, algumas mulheres se maquiavam lá dentro, aqueles potes de cremes lhe davam água na boca. Percebeu que a maioria das lojas eram de coisas supérfluas, como podiam gastar dinheiro com tantas baboseiras sendo que havia tanta fome ?, no shopping só deveria ter comida, pensou consigo. Parou em frente a uma loja de vestidos, ficou durante dez minutos admirando um longo vestido prata, não tinha sonhos concretos na sua vida, mas gostaria muito de ser uma princesa, isso significava conforto e bajulações, entrou e pediu para provar o vestido. As vendedoras acharam aquilo uma ofensa, afinal, aquela mulher nunca teria dinheiro para pagar tal vestido, de fato ela não possuía o valor necessário, mas seu objetivo era somente provar, para que durante um minuto de sua vida se sentisse menos oprimida e um pouco feliz, daria até um sorriso, naquele minuto ela seria um princesa. Mesmo com grande insistência não atingiu seu objetivo e foi expulsa sem mais explicações, ela estava imunda e sujaria o vestido.
Logo as lágrimas vieram e sentiu grande tristeza, mas ela sabia que aquele era um sonho inatingível, continuou a caminha cabisbaixa, lembrou que deveria voltar para casa, as crianças já deveriam estar com fome, resolveu pegar um pouco de papel e latinhas das lixeiras do shopping, sentou no piso gelado, virou o lixo no chão e começou a separar o que era de seu interesse, as pessoas que circulavam pelo local ficaram horrorizadas e logo os seguranças foram acionados, ela tentou explicar que colocaria tudo no lugar mas já estava sendo arrastada para fora, todos achavam que ela havia roubado alguma coisa. Deixaram ela na rua e lhe disseram para não voltar mais. Eles estavam certos, afinal, aquele não era seu lugar, ela não pertencia aos "necessários para existência", se sentiu triste pois as pessoas que lhe olhavam com tanta repugnância eram tão vazias que mal poderiam refletir sobre seus próprios defeitos, os quais às tornariam realmente repugnantes.
Quando a chuva começou ela já estava quase chegando em casa, um barraco de dois cômodos feito de lona, estava muito cansada , os bebês já haviam dormido, sua filha mais velha de 10 anos veio lhe abraçar, ela soltou um suspiro e perguntou como havia sido o seu dia:
- Hoje eu fui passear no shopping minha filha.
enviada por eder
Feed: Seja avisado quando este blog for atualizado :: (O que é isso?)
|