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15/05/2004 19:03

UMA HISTÓRIA SOBRE NIGUÉM

Girava o copo de whisky lentamente, os cubos de gelo refletiam diversas imagens destorcidas, que logo derreteriam e sumiriam dali, sempre achei esses copos um sinônimo de melancolia, pois o gosto amargo que rasga a garganta só é aceito pelo alívio psicológico gerado, mais uma fuga da realidade, tapando com um pano escuro toda uma existência sem significados. Meus dois colegas discutiam alguma coisa supérflua, enquanto fumavam seus cigarros baratos, soltavam várias gargalhadas e deixavam seus dentes amarelados à mostra ao passo que eu me limitava a lhes oferecer leves sorrisos e a falsa sensação de que demonstrava algum interesse no que diziam. Haviam diversas pessoas no estabelecimentos, as mesas estavam repletas de pessoas bem vestidas com seus diálogos descontraídos, a sua maioria era formada por advogados, os mesmos pseudo intelectuais, introspectivos cientes do vazio que os preenchem, das amarguras e tristezas que tomam conta de suas vidas, assim como eu, todos são iguais, criando assim uma imagem externa de aparências superficiais, são tantas gargalhadas que quando demasiadas demonstram o desespero que age por trás de tudo.
Quando admiti pra mim mesmo que minha vida foi um fracasso, que eu não soube utilizar das ferramentas que foram-me proporcionadas, ficou mais claro enxergar a vida, a aceitação foi deveras angustiante, contudo libertadora. Agora não espero nada ilusório, me cansei da obrigação de possuir um sonho, de almejar coisas que só nos fazem cair e perceber que somos incapazes, não quero mais isso para mim, não quero nada além da fronteiras seguras da minha capacidade. Quando me sento nessa mesa todas as sextas-feiras, percebo o quão grande são meus anseios e como é tão difícil me sentir sozinho entre tantos, a certeza de que mais pessoas sentem os mesmo de certa forma me abala.
Pedi licença e levantei-me, um deles falava sobre a política econômica de um país qualquer, mal perceberiam minha ausência, todo aquele ambiente estava me causando náuseas, resolvi me refugiar no banheiro. Aquele homem de terno preto e gravata torta refletido no espelho não se parecia comigo, com o que eu era, não conseguia me reconhecer em nada, se é que isso já aconteceu alguma vez. Estava em meio a esses devaneios quando meu sangue congelou de súbito, havia uma garota sentada no canto do banheiro, coloquei a mão na boca para não gritar e ela deu um sorriso quando viu minha cômica reação.
- Você costuma usar o banheiro masculino sempre ? Perguntei abrindo um sorriso amigável, meu coração estava disparado.
- Pra falar a verdade, procuro não ser previsível em minhas atitudes, convenhamos que estar aqui nesse instante não é algo que você esperava. Disse ela ajeitando seus cabelos negros. Na verdade costumo me esconder de mim mesma aqui, tenho tantos problemas em minha vida que preciso de refúgio para pensar, muitas vezes escolho lugares inusitados como esse.
- Refúgio...estranho, mas não há como não sentir empatia, também me escondo para me massacrar com auto questionamentos. Disse eu com certa tristeza no olhar.
- Prefiro não buscar respostas, assim sofro menos, o que faço é contar as mesmas histórias, conto somente para mim para rever tudo e deixar as coisas mais claras, mas não tenho o poder de mudar nada, deixo-as como estão, nada de questionamentos, se eu refletir sobre algumas coisas por cerca de dois minutos, terei motivos para chorar por uma existência, sendo assim desligo essa parte do meu cérebro.
- As vezes busco esse interruptor mas não encontro.
- E com certeza muita gente também não, bem... agora eu vou andando, chega de perturbar o banheiro dos homens, já deixei muitas lágrimas por aqui, até mais.
Me deu um beijo na boca e saiu sem dizer mais nada, fiquei imóvel por alguns instantes passando a mão nos lábios, sem dúvidas tudo aquilo foi muito estranho, me senti cansado, por um instante me senti morto, mas só quem vive realmente pode se dar esse luxo.
Saí do banheiro e questionei um homem que estava próximo a porta se havia visto a garota, ele afirmou que não viu ninguém sair por aquela porta, olhei para mesa em que meus amigos estavam e não havia mais ninguém, já haviam se retirado. Me senti mais sozinho do que nunca e saí do estabelecimento, andei pelas ruas escuras sem rumo aparente, percebi que tudo o que eu sentia era muito mais do que a solidão, que talvez a garota nunca tivesse existido contudo eu queria encontrá-la, mas quem iria me procurar ? quem sentiria minha falta ? a certeza de não existir me corroía, mas naquela noite aprendi a deixar as indagações de lado.

enviada por eder






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