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29/05/2004 15:33
AS SENHORAS DE CURITIBA

Todos estavam equivocados quando julgaram ser um assalto o fato de um menino todo sujo estar próximo àquela senhora. Dona Eleonor, no auge de seus 68 anos, adorava passear no centro da cidade, estava elegante como sempre com seu casaco marrom e seus óculos grandes, sempre observando as lojas mais caras. O menino ao seu lado se chamava Luiz, morou na rua durante praticamente todos os seus 13 anos de vida, naquele inverno ele não negaria qualquer proposta que lhe fosse imposta, desde que ficasse longe do frio e das madrugadas intermináveis. Quando aquela senhora grisalha apareceu ele concluiu que não desperdiçaria a chance, dialogaram por alguns instantes e saíram andando em meio ao calçadão um ao lado do outro.
Quando chegaram no apartamento, Luiz percebeu que naquele lugar estava mais frio do que na rua, não entrava vento algum, contudo era de fato muito triste e vazio. Os móveis todos muito antigos e na sua maioria apodrecidos foram talhados de maneira meticulosa em mogno, haviam vários lustres e peças de prata. Enquanto ela fechava a porta atrás de si, ele foi logo ao banheiro na terceira porta, trancou e ficou encostado por alguns instantes, era um banheiro muito bonito que possuía até banheira. Não havia espelhos, assim como na casa inteira, outrora Dona Eleonor fora uma grande modelo fotográfica e passou a vida inteira fazendo uso de sua imagem, agora, diversos outonos depois ela se recusava a enfrentá-la, pois havia percebido que assim como a beleza o seu talento se fora, se é que realmente existiu algum dia. Para Luiz nada importava na personalidade da velha, o que ele não podia era passar mais uma noite com os ossos congelados, no dia em que perdeu três dedos do pé percebeu que não suportaria por muito tempo essa situação, precisava do dinheiro que ganharia – elas sempre pagam bem – pensou consigo, assim poderia comprar algo para entorpecer os sentidos e ficar longe desse mundo inóspito.
Eloisa estava sentada no sofá contemplando o vazio de sua casa, já havia perdido a conta de quantos anos ficara ali fazendo a mesma coisa, dia após dia, envelhecendo lentamente ao passo que a solidão corroía sua vida. Quando o glamúr se foi, levou consigo a felicidade superficial, porém constante, que invadia os seus dias, acabaram-se as festas, foram-se as amizades, termiram-se os amores ocasionais. Sentia-se desprezível, vasculhava dentro de si algum tipo de valor, contudo a busca era vã, nada sobrou, somente os dias intermináveis e cansativos de ócio e infelicidade que à fazia recorrer à esse tipo de atitude a amargura agora era sua grande parceira.
Luiz saiu do banheiro e se aproximou do sofá, ela o fitava com um olhar falso de felicidade, ele lhe deu um beijo longo, sentiu um pouco de ânsia de vômito, se afastou passou a mão nos lábios então, calmamente, começou a se despir.

enviada por eder






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