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11/09/2004 11:46
VAI,ESCREVE A SUA HISTÓRIA
Puxa a cadeira e senta, o cigarro continua no canto direito da boca (os lábios já estão amarelados nesse local), estica os braços, movimenta o pescoço para todos lados, um estalo feio soa pela cabana vazia. Dedos enrugados, pele áspera e uma mente brilhante, sem igual. Tudo o que os olhos azuis e cansados viram durante todas as estações torna-se poesia, histórias incríveis, contos fantásticos, pode até não haver importância em todos os atos e momentos, de fato, mas isso não importa agora, ele irá escrever a história de sua vida. Imaginação um pouco limitada, mas não há muito o que criar, apenas contar, pois os momentos estão ali, imóveis no infinito, na tarde em que à avistou pela primeira vez na estrada de chão Ah como ventava naquele dia - no seu ipê brilhando como o sol, era só seu em meio a muitos, e de beleza incomparável. Tudo estava no seu baú de tesouros, suas lembranças. Toma um longo gole de cerveja, solta um pequeno arroto e ri de si mesmo, ainda não decidiu quem citará nos agradecimentos, mas não tem problema, o papel ainda está em branco. Tem convicção de que deve começar contando as peripécias de sua juventude, mas não encontra nada que irá prender o leitor, apenas estudo e algumas farras, mas nada significativo. Talvez seus questionamentos quanto a existência resultassem num bom prólogo, mas acabaria tornando-se um livro de lamentações ininteligíveis, tendo em vista que hoje, já com aroma senil na pele, ainda não possuí uma opinião concreta quanto ao assunto. Decidiu então escrever sobre a vida adulta, trabalho, casamento, filhos tudo como deve ser, pois foi assim que chegou até onde está.
- Tudo como deve ser ? Perguntou para o nada.
Talvez a imagem que possuí de uma vida feliz e de sucesso não é de toda verídica, oculta esse pensamento da mente e dos olhos, mas está tão presente quanto sua barba branca. Ele não é e nunca foi feliz. "Não possuí talento algum", são essas as palavras que doem, mas nesse instante a verdade se põe soberana à sua frente, as lágrimas que caem são o reflexo do fracasso. Buscar inspiração na sua vida cotidiana de nada bastava, os elogios nunca foram verdadeiros, tem isso nítido em sua mente já que não consegue escrever mais nada sobre sua própria vida que vida ? pois o que viveu dia após dia foi apenas uma peça de teatro na qual interpretava a si mesmo um personagem feliz, mas que guardava mágoas das pessoas à sua volta, que não amava ninguém a não ser a si mesmo, e que sentia prazer na dor, no choro do próximo. Sentia prazer ao defrontar-se com o sofrimento alheio à sua realidade inequívoca. Os pensamentos lhe vêem à mente de maneira perturbadora, uma explosão dentro de si que se propaga de maneira violenta, em apenas alguns segundos a máquina de escrever se faz em pedaços. Sai da cabana com os papéis em branco nas mãos sua vida o céu está azul e não há nuvens, "perfeito", pensa consigo, respira fundo e caminha pela trilha que leva até o lago, seus ossos fracos já não lhe permitem muito esforço, mas há algo a ser feito. Ajoelha-se próximo ao lago, evita o reflexo do velho cansado que o desafia, as lágrimas em seus olhos prejudicam ainda mais sua visão debilitada e com um grito fraco, quase inaudível, joga todos os papéis para o alto os quais caem um a um na água e afundam lentamente. Levanta-se com dificuldades, caminha alguns passos rumo à cabana, para por alguns instantes e observa as árvores ao redor, o vento. Ele acaba de jogar sua vida fora, tudo o que ele possuía estava naqueles papéis, voltou-se de súbito, o brilho do lago o cegava, fechou os olhos e limpou as lágrimas, precisava buscar o que era seu. Reuniu todas as suas forças e correu... o salto não foi longo, na queda conseguiu apanhar uma folha em branco que afundava tristemente na água gelada, mas ainda haviam várias espalhadas, diversas já haviam afundado, ele decidiu juntá-las todas, mas já não havia força para isso. Ele não saiu do lago e as folhas continuaram em branco por toda a eternidade.
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enviada por eder
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